Oportunidades de Melhoria e Criatividade.

Introdução

O gerenciamento por processos e o método de análise e solução de problemas exigem mudanças nas premissas organizacionais e mudanças nas pessoas. Além disso, as empresas estão cada vez mais pressionadas para inovarem, para pensarem diferente, buscando soluções criativas antes dos concorrentes. Demandas por maior produtividade, qualidade e lucratividade também crescem constantemente.

Hoje, o diferencial do produto é efêmero. A tecnologia rapidamente se torna obsoleta, a defasagem entre empresas é cada vez menor. Diante dessa situação, a criatividade e o espírito empreendedor precisam ser estimulados. As pessoas precisam ser conscientizadas de que são responsáveis por tornar mais eficiente a organização em que trabalham, buscando a melhoria continua em todos os aspectos.

Nós, os seres humanos, temos a capacidade de criar novos conceitos a partir de experiências passadas e da análise dos fatos que ocorrem ao nosso redor. Temos o conhecimento, mas isto não basta para sermos inovadores. É necessário usar o conhecimento de forma criativa, ou seja, com uma perspectiva que leve a procurar idéias, a manipular o conhecimento, a experiência. Importante usar ideias “bobas” ou “malucas” como gancho para novas ideias. É necessário ser criativo.

Como disse Albert Szent Gyorgyi, prêmio Nobel de medicina, ser criativo é olhar para o que todo mundo vê e pensar uma coisa diferente. Pensando assim, criatividade não se resume a feitos extraordinários, pode estar no cotidiano, em uma nova forma de unir os lados de uma camisa (velcro no lugar de botão), na forma de se organizar uma fila em um banco, na forma de se fazer uma reunião, etc.

Perceber que a criatividade é uma nova forma de pensar sobre os problemas encontrados no dia a dia abre novas perspectivas no gerenciamento de processos e na melhoria continua.

No entanto, a maioria das pessoas tem um comportamento bloqueado por filtros mentais que são danosos ao pensamento criativo.

Barreiras à criatividade.

As barreiras ao processo criativo surgem da forma como a mente processa os dados percebidos, ou seja, do nosso processo perceptivo, de fatores emocionais, culturais, ambientais e intelectuais.

A percepção consiste em um processo de codificação, onde os eventos são captados pelos sentidos e transformados em impulsos nervosos pelo sistema nervoso.

Os estudos do processo perceptivo têm mostrado que a percepção de um evento ocorre geralmente mediante órgãos sensoriais, ao mesmo tempo. Dependendo do objeto percebido, haverá a predominância de um ou outro órgão sensorial. Mas dificilmente, a percepção de um evento envolverá um órgão sensorial isolado. Quando se assiste a um concerto, a audição é o sentido predominante, mas ouve-se melhor quando se vê a orquestra. Assistir a um filme envolve a visão e a audição, havendo maior ou menor predominância da visão, conforme haja ou não legendas na tela.

Não podemos nos esquecer de que todos estes processos perceptivos se dão dentro de um determinado contexto. Não percebemos um homem com uma batuta, mas um maestro em frente a uma orquestra.

Além disso, nossa memória, armazenando as experiências vividas, integra o processo de percepção.

Portanto, a percepção é influenciada pelas características do ambiente (contexto), pelas coisas percebidas no passado e pelo estado emocional do indivíduo.

Muitas vezes, as situações estão claras para os outros e permanecem obscuras para o indivíduo emocionalmente envolvido, porque ele não se permite percebê-las.

A percepção de uma situação ou objeto complexo exige que a atenção seja voltada para os seus diferentes aspectos. O fato de se dar atenção a um aspecto particular de um objeto ou de uma situação complexa limita sua percepção.

A experiência passada faz com que cada indivíduo procure dar às situações vividas, um significado próprio.

Podemos relacionar a aquisição da percepção aos objetivos e ao que é importante para cada pessoa. Portanto, nossa percepção está fundamentalmente influenciada não só pela experiência passada, mas também pelos nossos motivos, valores e atitudes.

O estudo do processo perceptivo pode levar-nos a concluir que cada um de nós pode ter sua criatividade limitada, mas que também podemos romper com os bloqueios mentais. Para isto precisamos desaprender o que aprendemos. Sem esquecer temporariamente o que se sabe, a mente humana fica “presa” a respostas prontas e que não saem do “lugar comum”.

Tem uma fábula budista que diz que um mestre Zen convidou um de seus discípulos para o chá da tarde em sua casa. Os dois conversaram um pouco e chegou a hora do chá. O mestre começou a servir o chá na xícara do discípulo e mesmo depois que o chá começou a derramar ele continuou a derramar o líquido. O chá foi se espalhando pelo chão. O discípulo então disse: “Mestre, o senhor precisa parar de servir. O chá está derramando, não está indo para a xícara.” O Mestre respondeu: “Muito perspicaz de sua parte. O mesmo acontece com você. Se pretende receber os meus ensinamentos, precisa primeiro esvaziar sua xícara mental”.

É necessário desaprender o que sabemos.

As barreiras emocionais surgem da falta de entusiasmo e ânimo. Quando a pessoa se sente desgastada para assumir desafios, com medo de cometer erros e com um apego exagerado por segurança.

As barreiras culturais, ou a influência do modo de pensar e agir de uma sociedade em um determinado momento histórico, vão limitando nossa capacidade de criar e recriar (por exemplo, nossa formação aristotélica criou o conceito de que a lógica é sempre melhor que a intuição e criou um modelo educacional que perdurou por muito e muito tempo).

Além disso, as barreiras ambientais também limitam nossa criatividade. O modelo convencional de escritório e de chão de fábrica não é nenhum estímulo ao pensar criativo. As distrações (ruídos, chamadas telefônicas constantes, monotonia, monocromia, desconforto ergonômico) inibem a nossa criatividade.

As barreiras intelectuais advêm da dificuldade de comunicação entre as pessoas, dos métodos inadequados para abordagens dos problemas.

É importante que os gerentes reflitam um pouco sobre essas barreiras para perceberem de que forma podem ajudar suas equipes a se tornarem mais inventivas e capazes de solucionar problemas.

A criatividade e a melhoria nas organizações

Com as mudanças que estão ocorrendo na economia nos últimos anos, os empresários vêm tomando consciência da real necessidade da excelência no atendimento aos clientes, redução de custos, aumento da produtividade e outras ações capazes de elevar a competitividade das empresas, capacitando-as para a competição de uma forma globalizada. As formas tradicionais de gestão empresarial já não são eficazes para que estes objetivos sejam alcançados.

Tais mudanças no meio empresarial exigem também mudanças profundas nas pessoas, que passam a ser vistas como o maior patrimônio existente na organização. É necessário que as pessoas da organização sejam responsáveis não só pelas suas funções específicas, mas também tenham um compromisso com a melhoria de produtos e processos, agindo como efetivos solucionadores de problemas.

A busca pela melhoria contínua dos processos é fundamental para a sobrevivência empresarial, e o gerenciamento por processos é uma metodologia capaz de orientar a empresa nesta direção. O gerenciamento por processos necessita, em todas as suas fases, de trabalho em equipe e comprometimento de todos dentro da organização. A criatividade e a motivação tornam-se essenciais.

A maior vantagem que os seres humanos têm sobre os outros animais é sua capacidade de criar novos conceitos com base em experiências passadas e na observação e análise de eventos que ocorrem ao seu redor. O uso construtivo do fogo, da roda, do telefone, da lâmpada...mostra como mentes criativas proporcionam o combustível para movimentar a humanidade.

Mas a criatividade não se manifesta apenas em conceitos que rompem barreiras. Ela está no cotidiano. Fulano acha uma maneira mais fácil de imprimir cartas-padrão. Sicrano desenvolve um novo “papo” que aumentará as vendas de livros. Beltrano descobre como tirar torradas da torradeira sem se queimar. Sim, a criatividade e a descoberta andam de mãos dadas.

Nas organizações é fundamental que a criatividade e, conseqüentemente, a inovação e o espírito empreendedor sejam estimulados.

Porém, para que isto ocorra, deve existir um ambiente favorável, de forma que a criatividade das pessoas possa se manifestar na forma de ideias e ações. O gerenciamento de processos exige criatividade em todas as suas fases, tanto na definição, na análise, como na captura de oportunidades de melhoria. As organizações gerenciadas de forma a possibilitar o uso da criatividade terão maiores ganhos e mais facilidade na implementação do gerenciamento por processos.

Em todas as fases do gerenciamento por processos é necessário o trabalho em equipe e o uso de técnicas nas quais a criatividade é um fator determinante. É necessário que os envolvidos atuem de modo pró-ativo na busca de soluções para os problemas (resultados indesejáveis do processo).

Autor: Gisela Moura
Ateq Engenharia

“Ser criativo é olhar para o que todo mundo vê e pensar uma coisa diferente.”
Albert Szent Gyorgyi